domingo, 8 de maio de 2011

A HISTÓRIA DOS SAUDOSOS QUADRINHOS DA LA SELVA



   De uma modesta casinha na rua Pedro de Toledo, em Vila Mariana, lembraria no ano passado, pouco antes de morrer, o grande artista português Jayme Cortez, saíram algumas das melhores revistas de quadrinhos do Brasil, produzidas pela Editora La Selva.

   Entre outras, "Terror Negro", "O crime não Compensa", "Dick Peter", "Sobrenatural – Mistérios do Alem", "Gato Félix", "Arrelia e Pimentinha", "Flash Gordon", Oscarito e Grande Otelo", "Jim das Selvas". Nenhuma dessas revistas circula mais, mas, aqueles privilegiados que liam todas elas, nos anos 50 e 60, ainda lembram com carinho e curiosidade da Editora La Selva. O que terá acontecido a essa gente?

   Foi para matar as saudades dessa época que Maria Souza  Almeida La Selva, mulher de Jácomo Antônio La Selva, uns do quatros filhos do fundador da editora, Vito La Selva, concordou em conversar longamente com um dos antigos funcionários da casa, Reinaldo de Oliveira, num paciente e terno trabalho de reconstituição da historia da editora e de seus produtos mais  famosos. O resultado é um livrinho de leitura gráfica modesta (Editora Sublime, 86 páginas), mas cheio de informação e dados curiosos, além de passagens comoventes, sobre o surgimento e depois o crescimento da Editora La Selva.

   Reinaldo, diz dona Maria, tinha de fato todas as condições para armar esse quadro histórico da editora, pois foi o primeiro secretário de redação da La Selva, conhecendo muito bem todos os momentos de luta e alegria que costumam marcar esse tipo de empreendimento num país como o Brasil, onde o negócio editorial ainda é coisa de gente paciente e incansável.

NA ESCOLA DA RUA

   Jácomo Antonio La Selva, lembra Reinaldo, filho do jornaleiro italiano Vito Antonio La Selva, nasceu no Brás, e cedo aprendeu a dividir seu tempo entre o Grupo Escolar Romão Pulgarri, na avenida Rangel Pestana e a venda de jornais nas ruas da cidade. Corriam os anos 30, e Jácomo mais tarde contaria como eram os meninos jornaleiros da cidade, "lépidos, vivos, gritalhões, corriam para todos os lados e pulavam de bonde em bonde, apregoando as folhas com entusiasmo, de modo a exagerar escandalosamente a importância da notícia e até a deturpar-lhes o sentido, na ânsia incontida de empurrar toda a mercadoria". O nome La Selva ficando conhecido, ao lado de outros do ramo, todos peninsulares como ele - Zambardino, Labate, Siciliano, Pelegrini, Modesto, Mastrochirico.

   Foi nas ruas que ele, com os irmãos Paschoal, Antoninho e Estevão, aprendeu Todos os truque do oficio de vender bem o produto editorial, chamando a atenção do leitor. O velho Vito, mais tarde começou também a distribuir publicações, e logo abriu sua portinha no centro da cidade, outra vez ao lado dos conterrâneos – Polano, Scafuto, Annunziato  , Soave. Foi o sucesso na distribuição de uma revista montada por argentinos, "Bom Humor", quinzenal, chegou a vender 45 mil exemplares , que estimulou Vito a abrir sua própria editora, La Selva, começando timidamente com uma pequena revista, "quase um panfleto", "Seleções de Modinhas","Instintivamente", diz o autor Reinaldo de Oliveira, os La Selva, "acostumados a trabalhar diretamente com o publico, sabiam que uma capa bem colorida ajudava a vender o conteúdo."

O GRANDE SUCESSO

   A grande  oportunidade, porém viria nos anos 50, com o surgimento da revista "Terror Negro", lançada com grande  sucesso no ano seguinte, tendo como diretores os irmãos Jácomo e Paschoal La Selva, e secretário Reinaldo de Oliveira. Era a primeira revista do Gênero terror publicada no Brasil, com histórias completas, e seu aparecimento, lembra Reinaldo "obedece a uma escala , crescente do próprio gênero no país ", na verdade aproveitando inteligentemente o sucesso desse tipo de histórias – os "terror tales" – nos Estados Unidos.

   Com o sucesso de "O Terror Negro", a Editora La Selva, começou a crescer e "a precisar de colaboradores. Os primeiros foram Gedeone Malagola, Francisco Oliveira, João Batista Queiroz e, logo depois, Álvaro de Moya, Sillas Roberg, Jayme Cortez, Miguel Penteado" e caberia ao português do Bairro Alto de Lisboa, Jayme Cortez, fazer grande revolução nas capas da editora, sobretudo em "O Terror Negro". Até então as capas das revistas da La Selva eram desenhadas pelo pintor Waldemar Cordeiro. Foi preciso muita conversa para convencer os La Selva a dar uma oportunidade a Jayme Cortez, pelo menos um trabalho experimental. "A capa dele era tão espetacular, com um senso popular e apelativo tão grande que o resultado não poderia ser outra. Tomou conta!".

ATÉ OS DIAS DE HOJE

   Em 1951, a Editora La Selva continuava crescendo: publicava 28 revistas mensais , com uma tiragem de um milhão de exemplares, distribuídos pelo Fernando Chinaglia Distribuidora. Era preciso então ter gráfica própria, que foi comprada na rua Carneiro Leão, no Brás. O velho Vito, já cansado, preferiu se aposentar, deixando a Editora aos cuidados dos filhos Jácomo, Paschoal, Antoninho e Estevão. Em 1960, deu-se uma cisão na empresa,e na editora ficaram Paschoal e Antoninho. Jácomo e Estevão saíram. Em 1968, com a morte do velho Vito, a viúva passou a dirigir os negócios, "até a dissolução da firma e venda das máquinas".

   Mas o negócio editorial, diz Reinaldo de Oliveira, "não foi abandonado pela família. Estevão  La Selva, o mais novo dos irmãos, montou sua própria firma,a Editora e Gráfica Trieste, reiniciando a publicação de várias revistas, incluindo o antológico " Terror Negro".Jácomo La Selva também  fundou seu negócio, a Editora Sublime, que edita revistas eróticas, "Fiesta" e "Mini", entre outras. Agora Jácomo  está diversificando seus negócios, investindo no ramo turístico.

   Seja como for, observa Reinaldo de Oliveira, dentro ou fora do ramo, os La Selva podem se orgulhar, ao lado de Adolfo Aizen, da Ebal-América, Roberto Marinho de O Globo, e do começo da Editora Abril, sob o comando e Vitor Civita, de terem sido os grandes pioneiros das histórias em quadrinhos no Brasil. Com uma vantagem sentimental, quem sabe, para a Editora La Selva, que antes da solidificação gráfica e editorial de Aizen, Civita e Marinho, fazia um produto mais tosco, é verdade, mas muito mais saboroso.



 

                        A família La Selva : Jácomo, Antoninho, Paschoal e Estevão


(Matéria publicada na Folha da Tarde, São Paulo, no início dos anos 90)

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